segunda-feira, 18 de abril de 2011

Cinema de índio

Carlos Minuano
Rede Brasil Atual
Familiaridade com câmeras fotográficas e filmadoras mostra que a tecnologia tornou-se instrumento de resistência cultural na aldeia Moyngo,no Xingu

No futuro, quem sabe, dirão ser rastros de civilizações antigas as imensas áreas descampadas onde se destacam enormes geoglifos, como o que avistamos da janela do monomotor que nos leva rumo ao Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso. Mas o desenho no solo, em forma de sucuri, cujos contornos foram demarcados com eucalipto e soja, nada tem a ver com os indígenas da região.
Os campos verdes são a marca mais chocante do desmatamento provocado pela plantação de soja que avança Amazônia adentro. É isso, e não a beleza da região, o que rouba a atenção na porta de entrada do parque indígena criado pelos irmãos Villas Bôas (Orlando, Cláudio e Leonardo), que neste ano completa seu cinquentenário.
O cenário muda quando aterrissamos no Médio Xingu, na aldeia do povo Ikpeng - uma das 14 etnias que vivem na terra indígena. Por lá, a beleza natural salta aos olhos e a natureza é preservada. O clima também é contagiante. "Aldeia nova, tudo novo", comemora o simpático pajé Araká, enquanto nos guia até a aldeia Moyngo, para onde ele e sua tribo se mudaram há poucos meses
. O espaço, com 12 cabanas, fica a 15 minutos do posto indígena Pavuru - comunidade à parte, com área de atendimento médico, escola. É onde vivem também os profissionais que trabalham no local.
O pequeno grupo de jornalistas chega à aldeia para a festa de inauguração da Mawo, a Casa de Cultura Ikpeng, que passa a ser base de ações como formação, pesquisa, registro, difusão cultural e inclusão digital. O projeto é fruto de uma parceria entre a Associação Indígena Moygu da Comunidade Ikpeng, o Instituto Catitu - Aldeia em Cena e o Museu do Índio/Funai, com financiamento da Petrobras.
Foram três dias de celebração, com lançamento de um CD com cantos do Yumpuno, ritual de iniciação das crianças, e do documentário Som Tximma Yukunang, dirigidos pelos indígenas Kamatxi Ikpeng e Karané Ikpeng, com apoio da cineasta Mari Corrêa, do Instituto Catitu. O filme retrata o rito de passagem em que jovens são tatuados e aborda a tradição oral que permanece forte entre os Ikpeng, meio pelo qual conhecimentos e mitos ancestrais continuam sendo transmitidos por gerações.
O filme não é o primeiro. No total, quatro já foram produzidos - todos premiados internacionalmente. "É um movimento que vem de dentro da aldeia", diz Mari, que coordena a produção e formação audiovisual entre os Ikpeng. A familiaridade com câmeras fotográficas e filmadoras deixa claro que a tecnologia tornou-se um valoroso instrumento de resistência cultural na aldeia Moyngo. O encontro com a linguagem audiovisual, turbinado pela vontade de resgatar a própria história e identidade, mobilizou a energia que agora se cristaliza na forma da Casa de Cultura.
Quando começavam a produção do terceiro filme, sobre as origens do povo Ikpeng, os índios descobriram um farto acervo fotográfico na Universidade Católica de Goiás. Mas, além da burocracia-padrão, tiveram de pagar pelo uso das fotos. "Pagamos pra comprar algo sobre nós mesmos", reclama Kumaré Ikpeng, presidente da associação, coordenador local da Funai e cineasta. O episódio fez nascer a vontade de ter um espaço onde possam reunir material sobre a história do povo.

Luta pela terra
Buscar as tradições foi também o caminho que encontraram para que o conhecimento não se perdesse, ameaça que começou a rondar a aldeia com a morte de índios mais velhos. "Havia o desejo de incentivar os jovens a pesquisar as próprias origens", conta Mari. O pontapé inicial quem deu foi o pajé Araká. Segundo a cineasta, ele pediu que o Vídeo nas Aldeias - projeto criado em 1987 pela ONG Centro de Trabalho Indigenista - chegasse à aldeia Ikpeng, em 1997. "Já sentiam a necessidade de ter visibilidade e voz frente a uma sociedade que os ignora."
As primeiras experiências aconteceram no mesmo ano. Kumaré e o companheiro Karané gravaram o cerimonial de iniciação das crianças da aldeia. Depois, pesquisando o mito que deu origem ao ritual, rodaram o filme Moyngo, o Sonho de Maragareum, mistura de ficção e documentário.
Esse movimento desembocou no terceiro filme, Pirinop, Meu Primeiro Contato, realizado entre 2003 e 2007. Apesar dos vários momentos de palhaçada anárquica, típica do índio, o filme toca em uma ferida aberta do povo Ikpeng: a retomada do território em que viviam antes do encontro com o mundo não indígena, às margens do Rio Jato
Pouco antes do final de nossa viagem, uma conversa carregada de emoção com anciãos da aldeia Moyngo mostrou a importância do retorno à terra perdida. Airé, companheira do pajé, conta que chorou ao chegar à terra em que viviam e pediu ajuda para voltar ao que chamou de verdadeira terra Ikpeng. O pajé reforçou o pedido. "Foi uma tristeza quando vimos que tratores haviam desmatado a região." Mesmo assim, ele diz que encontrou o túmulo de sua irmã, e chorou. "Não quero morrer aqui, quero morrer lá, com meus familiares."bá, em Mato Grosso. Foi lá, na região localizada ao sudoeste do Parque Indígena do Xingu, que os Ikpeng tiveram seu primeiro contato com os Villas
Bôas. Antes de serem convencidos a ir para dentro do parque, em 1964, os Ikpeng, perseguidos e mortos por garimpeiros, estavam quase dizimados. O estrago foi tamanho que os 56 sobreviventes foram transferidos em uma única balsa.
Anteriores à produção do filme, visitas à área do Jatobá dão início a uma dramática luta pela terra abandonada, sobretudo entre os índios mais antigos. O processo oficial de reivindicação com a Funai começou em 2002, segundo Marcos Shimidit, engenheiro florestal e consultor técnico da Associação Indígena Moygu. Ele conta que em 2004, quando sobrevoou a área do Rio Jatobá, viu que a reação de fazendeiros locais também já havia começado. "Ao saber do processo de retomada das terras que tramita na Funai, aceleraram o desmatamento para a plantação de soja", afirma Shimidit.

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